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quinta-feira, 1 de março de 2018

Nódoa

Não há festa nem funeral
O clamor das ruas cessou
É só o silêncio nostálgico que ecoa
Lembrança dos tempos de infância
Antes dos laços quebrados.

Há dor sobre as calçadas
Em cada uma dessas rachaduras
O pesar, o peso das pegadas.
No pão careca os longos cabelos brancos
Nos olhos o vazio dos exemplos
Quem chora não quebra a falta dos soluços
Estamos todos atônitos,
Assistindo o terror do filme de nossas vidas.

Quem me dera voltar a segurá-la nos braços!
E essa angústia...há de passar!
A flor primeira chora e eu sou distância
A flor segunda chora e eu não tenho palavras.
Na sala, a sua história está presente:
Bem ali nasceu, bem ali deitou-se.
Tua história breve coberta de nódoa
Meu peito sem lágrimas mal aguenta a dor.

 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Nossas Memórias

O quê me mostra a lua
todos os dias
E o quê me mostram
todas as pequenas coisas
Um mundo enorme
que me rouba a alma
Dilacera-me o peito
E me lembra de ti.
Todos os segredos do Universo
Grãozinhos de areia espalhados
Onde piso, solo firme
E sou menor que cada grão
Pois meus pensamentos são o vazio
São falta e são mistério
Indesvendável mistério
Do não saber dos teus pensamentos
(Ainda pensas em mim?)

Levo-me pausadamente
A realidades em que o mar nos beija
Mas nunca fui mar e nem passarinho
E nunca saberei beijar-te
Como eles beijam as flores
Ou como o mar nos beijou um dia.
Cessa o tempo ante a nós
Maravilhado, olho as estrelas
Nenhuma delas me lembra de ti
E á exatamente a tua humanidade
Que me fascina e encanta.
Corre o dia, depressa e sempre
Em todos os lugares que fomos
Em todas as árvores que descansamos
Em todas as vendas que compramos
Em todas as esquinas que nos vimos
Em todas as vezes que nos apaixonamos
Um pelo outro
E, simplesmente, hoje nos resta
Um lugar no tempo onde moramos
Dentro de nós nos nossos melhores dias
Eternizados em nossas memórias.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Flor de Luz

Flor de luz
Te trouxe um pavio pra explodir corações

Segredos profanos, silêncio em ti
Castanhos chorando, eu to aqui!
Curto teu cabelo curto
Mostrando teu rosto
Forte, negra ameríndia
Fraca, apenas, menina

Olha atrás do espelho
Que atrás do espelho o passado é vivo
Beleza, tristeza, mas nunca solidão.
Ao seu lado, estamos
Aqui estaremos na hora do abraço
Tua luz vence a escuridão.


Quinhentos

Quinhentos anos atrás
Quinhentos anos atrás pra frente
Chicote estalando, pressão lá no norte
Gente de sorte nascia cor de leite.
Vossa Santidade exclamou:
- Tá liberado!
Passado, passado...que nunca passou.

Nave espacial de abduzir pelo mar
Trazendo pouco a pouco
Viemos tantos pra cá...

Hierarquia é a Lei:
Capitão obedece o Major
Que obedece o Tenente Coronel
Que obedece o Coronel
Que não obedece a Lei.

Montado em meus, ombros um homem,
Senhor de nada, pele escura
Como eu mas não como eu
À cavalo, à blindado
À mando de alguém que não é como eu.

Eu vejo pele parda em homens negros
Eu vejo pele negra em mulheres negras
Não está direito não ter direitos.

Da última vez que o vi, estava sozinho
Ainda caminhava, estava sorrindo
Feliz, encontrou a polícia em seu caminho
IML, esse é só mais um corpo de menino...

Capataz, teu serviço é ser algoz
Alma serena, fama de feroz
Sofrer por teus olhos verem pecado
Na pele de um povo livre por ti escravizado.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Palavra Tridimensional

Teu corpo
Essa palavra tridimensional
Movimento orgânico
Uma voz que gesticula
Torce e contorce
Meus olhos de compreensão.

Teus olhos
No escuro a ver oscilando
E sentir rebater em tua pele
A história do vento que passa
E faz da sua forma
Anteparo do seu canto.

Não há nada:
Nem glória, nem beleza,
Nem sutileza, nem brilho.
Só há em ti a essência e a fronteira
Tradução de contornos
E música em sua silhueta.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Tim tim por tim tim

No sopé do amor perco a vida
Descambando no início da jornada
Não abro caminhos e nem sigo viagem
Meu carro tem sempre a roda arriada...

Planejo derrotas tim tim por tim tim
Cada detalhe, cada tropeço
Antes do começo vou procurando o fim
Não viverei feliz pra sempre pois não mereço.



sábado, 30 de dezembro de 2017

Escombros da carne

É noite em mim, reflito estrelas
Sou mar de ondas correntes
Sou rio que a maré leva e traz.

Atrás dos meus olhos vermelhos
O mundo se forma na contramão
Medos do passado voltam sem convite:
É tempo de poesia pra salvação.

Posso ser minha promessa divina
Os meus segredos ainda são só meus
Espreito meus pensamentos na surdina
Rezo, mas a minha prece não é a deus.

Não pode ser justo o amor, acredito
Mundano, erguido nos ombros da dor
É triste: pra ser feliz só se sangra
É lasso pela servidão ao seu senhor.

E o choro que longe se escuta
É luta? É sangue? É o quê?
É rio que flui para a nascente
Lágrimas de uma vida sem porquê.